Um dia Deus disse aos anjos:
– Tive uma ideia. Vou criar a família.
– O que é isso? – quis saber um anjo.
– Estou muito entusiasmado com a ideia – disse Deus.
– Claro, sempre me entusiasmo com todas as minhas ideias. Uma das grandes vantagens de ser Deus é nunca ter uma má ideia, mas esta é especial. Família será a maneira com que ligarei as pessoas ao amor. Funcionará assim: adultos se oferecerão para cuidar de um estranho pequenino.
– Serão pagos por isso? – perguntou o anjo.
– Não, esse estranho na verdade lhes custará muito dinheiro. E mais, não será capaz nem de falar, a princípio. Apenas chorará e gritará, e os adultos terão de adivinhar por quê. Perderão o sono. Ele fará o tempo todo bagunça que os outros terão de limpar. Será completamente vulnerável. Terá de ser vigiado vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana. Então, aos dois anos, o pequeno estranho conseguirá dizer palavras como “não” e “meu” e fará birra. Também estou pensando em inventar a puberdade. Ainda não me decidi sobre isso, mas, se o fizer, o serzinho receberá uma coisa esquisita chamada hormônios que o farão enlouquecer. Coisas estranhas acontecerão com o corpo dele. Haverá espinhas, a voz falhará e o sistema límbico derreterá. Depois crescerá e, justo quando for maduro, belo, interessante e capaz de contribuir, sairá de casa. Essa é a ideia. O que vocês acham?

Os anjos foram saindo de perto, olhando para os próprios pés. “Quem dirá para ele?”, pensaram.
– Senhor, quem se oferecerá para uma coisa dessa? Por que o fariam?
Nesse momento Deus se encheu de entusiasmo.
– Eles nem saberão por quê. Só olharão para o corpinho, as mãozinhas e os pezinhos e acharão que o pequeno estranho é lindo, embora se pareça com todos os outros bebês, e todos os bebês se pareçam com Winston Churchill. Até que um dia o pequeno estranho sorrirá, e eles pensarão que ganharam na loteria. O pequeno estranho dirá “papai” e “mamãe”, mas dirá “papai” primeiro porque os pais se sacrificam tanto e são tão nobres… Como eu os amo. Mas as mães também são boas. Ele dirá “papai” e “mamãe”, e então aqueles bracinhos e mãozinhas se abrirão, se estenderão e envolverão o pescoço do adulto, e esse adulto pela primeira vez na vida entenderá para que os braços e as mãos foram criados.

– Tudo isso na verdade tem a ver com graça – prosseguiu Deus. – As crianças, a nova geração, aprenderão que são estimadas e pertencem a alguém, tudo isso antes mesmo que tenham feito uma única coisa para merecê-lo. A velha geração aprenderá que, quando dão, recebem. Quando dão o máximo, recebem o máximo.
– E então um dia eu lhes direi: “Raça humana, eu sou seu Pai. Você é minha filha; você é meu filho”. Eles entenderão e se abrirão.

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por Rev. John Ortberg, em “Sendo quem eu quero ser”, p. 272-274.

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